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helogomes

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O look-nosso-de-cada-dia está recheado de significados fascinantes, mas, em geral, inexplorados. E é justamente esse buraco que gera tantos "não tenho nada pra vestir" mundo afora e closets adentro...

Que tal diminuir a distância entre sua aparência e o seu eu interior? Só assim a gente consegue emitir os sinais da moda que autenticamente refletem quem somos...

E é isso que eu chamo de moda pra vida real!Vamos descobrir juntas?

Sanduiche de Algodão: pra quem tem fome de estilo!

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Cordel (encantado) de moda…

05 / 04 / 2011


Estava aqui me arrumando pra ir para a hidroginástica quando recebi esse vídeo mais que fofo do pessoal da Rede Globo. Gente, meu coração bateu tão forte, mas tão forte, que eu precisei parar tudo para contar para vocês uma coisinha… Algumas leitoras acompanham o blog há muito tempo, e até já sabem como minha vida profissional começou aqui em São Paulo, então peço desculpas se vocês já sabiam dessa história… Mas, para quem não sabe Hehe. Não deu pra não sorrir…

Acontece que em outubro de 2007 eu praticamente me mudei para Caruaru, agreste de Pernambuco, para fazer meu Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo sobre a maior feira ao ar livre do mundo, que fica ali, nessa cidade tão encantadora… Trabalhei como feirante, carroceira, vendedora, fui para o forró – show do Cavaleiros do Forró -, participei de churrasco com buxada, andei de mototaxi, fui na parada gay do agreste (tem uma parte ótima sobre ela no livro, mas não vou colocar aqui no post pra vocês ficarem curiosas!rsrs)… fiz aula de desenho na madeira (xilogravura!!) e tudo mais que vocês podem imaginar para conseguir sentir na pele como funcionava aquele mundo. Foi uma imersão tão grande que, quando voltei para Campinas para sentar e escrever tudo que havia vivido, sairam da minha caixola mais de 180 estrofes em repente de Cordel. Uma mistura de história da moda, com a história da feira com a história das pessoas que vivem dela, e para ela. O livro – uma reportagem fotográfica intitulada Cordel de Moda- Arte e Cotidiano na Feira de Caruaru -, ficou pronto no final de 2007 e só me rendeu alegrias nos anos seguintes. Com ele, levei o primeiro lugar do INTERCOM Sudeste e ganhei um concurso nacional de jornalismo, em 2008.

Pegando carona para ir de Caruaru até Recife com um furgão de uma banda de forró – o que quase matou mamãe do coração quando contei – toda animada – a minha aventura! Rsrs

Bom, se Deus quiser eu ainda publico o livro esse ano (joelhos dobrados!), é o que falta pra finalizar esse trabalho que teve tanta repercussão boa na minha vida, mas, enquanto isso não acontece, vou aproveitar a onda do cordel da Rede Globo e dividir um pouquinho dele aqui com vocês. (Foram mais de 3 mil fotos, não dá pra colocar todas aqui, é só um teaser mesmo, hehe). Ah, sim, o livro também é só em cordel (tirando a apresentação ) e não tem essas minhas intervenções que usei para esse post! É uma histórinha que vai do sapato, até o chapeu, claro, tudo em cordel (já estou rimando!Rsrs). Mas não vou mostrar tudo aqui… Usei muito o livro do Gilberto Freyre, Modos de Homem e Modas de Mulher – na verdade, cordelizei algumas de suas teorias. A biografia completa está no link do final…

“Nossa diversidade cultural é nosso maior patrimônio. Acho que devíamos aprender a dialogar mais com nossa regionalidade. Prestar atenção, por exemplo, na moda que é feita pelo povo e para o povo. Ainda temos muito preconceito, como se a moda não fosse algo popular. Mire-se no exemplo da Feira de Caruaru, um mercado que se renova, que se sustenta e que reaproveita matéria-prima que não é usada por outros produtores.”

Gilberto Gil, Fashion Marketing abril de 2007

Foi com essa frase que começou todo o meu trabalho de conclusão de curso da faculdade de jornalismo. Foram meses tentando descobrir o que era esse mundo feira de Caruaru – geografia, economia, história, tradições e tudo mais que pudesse explicar um pouco desse fenômeno do comércio de roupas que foi acontecer ali, no agreste pernambucano. Mal sabia eu que as respostas não estavam nos livros, mas na boca das pessoas.

Dentro da Feira de Caruaru, acontece a Feira da Sulanca, umas oito mil bancas que vendem tudo quanto é tipo de roupa. Barracas que são montadas e desmontadas semanalmente e que viram um imenso shopping popular ao ar livre. Dá pra imaginar?

 

Em cada feira roda

De real, mais de milhão

90% em nota viva

Pra facilita a transação

O resto é pré-datado

À vista ou no cartão

 

Não se avexe meu leitor

Que têm mais informação

37% da mercadoria

É lá toda produção

E 68% dos comerciantes

Em Caruaru, tem habitação

E aí eu me perguntava: Qual a distância entre a moda e a identidade brasileira… Distâncias? Não, não… existe ponte, reflexo.. tudo. Menos distância! As cores, os cortes, os tecidos, os brilhos estavam todos ali. Parecia que a inspiração do tema daquela coleção verão-verão saia do sorriso dos estilistas/vendedores e ia direto para a máquina de costura. Incrível assim, simples assim.

 

Moda é uso, estilo

É tipo passageiro

É gosto e capricho

“Sempri” de estrangêro*

Meu prezado, limpe a vista

Vô falá de brasileiro

 

Vestir, calças e falar

É cultural ou ligeiro*

Só que em Caruaru

Moda chega primeiro

Qui criatividade

Não falta pros costureiro

E lá tem absolutamente tudo: roupa masculina (gravata, terno, sunga, bermuda) roupa infantil, sapatos…

 

Pr’ajudá no passeio

Caruaru, na cidade

Tem coisa di pioneiro

É Feira do Calçado

Que pra vendê sapato

É o mais barateiro

 

O sapato s’inventô

Antes di vir o senhô

O querido Salvadô

Foi pelas pirâmide

Pro lado do Egito

Que o hómi se calçou

E pra mulher então? Blusa, top, calça, maquiagem, biquíni…

 

Mas Sulcana resolve

E deixa as donzela no riso

Com blusa, saia,jaqueta

Bata, top, vestido

Com bolero, camisa ou saia

Estampado, ou liso

 

Tem também decote

De canoa, em V e lua

Junta c´o short de lycra

Pra moça fica mais nua

Ai ela ta prontinha

Já pra ir pra rua

Acessórios..

 

Pra si infeitar também

A moça acha o que queria

Trancelim, corrente e brinco

Pra embelezá seu dia-a-dia

Tudo isso ela encontrou

Na parte da Bijuteria

 

Lá tem banca, tem banquinha

Pra muié s´embelezá

Bolsa e cinto de tachinha

Com colar pra s´enfeitá

Soma aí, mais o Ray ban

Pra homarada se oriçá

Lingerie…

 

Na Grécia, em Creta a

Lingerie apareceu

No século dezoito

Foi que amoleceu

Saiu metal e madeira

Veio barbatana de baleia

 

Na feira de Sulanca

Cabra sabe é não

Quanto qui tem na banca

Que lingerie é de montão

Só sabe que por peça

Faz de 10 pra cliente bão

Bolsa, saco, sacola pochete…

 

Foi na Idade Média

Qui´a bolsa de mão surgiu

As coisas não dava no bolso

Aí, a muié refletiu

Pra roupa colar no corpo

De bolsa se serviu

 

A bolsa evoluiu

Custando bem mais xerém

Por causa de belezura

Pois não engana ninguém

Funcionalidade, qualquer uma

De um jeito ou de outro sempre tem

E como afirmou Gilberto Freyre em “Modos de Homem e Modas de Mulher”, na feira pode-se comprar também muita moda não-visual, como música:

 

Muito se escreve da

moda e seu roteiro

Da roupa, biju e calçado

Só que compra o sacoleiro

Outros tipo de moda

Como música e cheiro*

 

Tem muito ritmo

Como di andar e falar*

Mas o caso aqui

É o que faz dançar

È baião, Xaxado e xote

Na festa mais popular

E cheiros…

 

A história do perfume

É mais ou menos assim:

Os hómi chamava deus

Queimava erva até o fim

Por causa de fumaça,

Surgiu “per femum” do latim

 

Perfume virou negócio

E ganhou monte de sinônimo

Pomada, aroma,xêro

Furo até camada de ozônio

Com ele que Cleópatra amô

Julio Cézar e Marco Antônio

Claro, chapéu.. muito chapéu…

A Caruaru está 

555 metro acima do már

Num planalto elevado

De clima semi-árido

O sol fica di rachá

E chapéu é bom di usá

Chapéu se tira na hora 

De almoça ou janta

Quando encontra moça

E no momento de reza

Taí o caso do chapéu

Que acabei de contá

Fazer uma ponte entre o universo da moda, recheado de super modelos, glamour e poder, com o cotidiano das pessoas comuns, era o objetivo principal de um trabalho de conclusão de curso de jornalismo, e por isso, não pude utilizar outra linguagem a não ser a mais escutada pelos corredores da querida feira: o cordel.

 

Pra contar a historia

Dessa cidade festeira

Usei um recurso

Feito na madeira

Junto com a literatura de cordel

Escrevi sobre a feira

 

Além de fortalecer

Folclore nacional

É hábito de leitura

E só custa um real

Aproxima o leitor

Com o texto coloquial

O cordel é marcado pela oralidade e por um ritmo sarcástico-informativo encantador. É através dele e de imagens da feira, que Cordel de moda – Arte e cotidiano na Feira de Caruaru, vai tomando forma, para narrar a versão caruaruense da estória da moda, através das várias histórias de Caruaru:

 

Partindo do sapato,

Vamos até o chapéu

Com história e anedota

Tudo em cordel

Mostrei a moda

E gente pra dedéu

 

Registrei a moda

Na maior feira artesanal

E quem for a Caruaru

Faça o principal

Visite o museu do cordel

E prepare o cheque especial

 

Espero que tenham gostado! =) Quem sabe, logo logo, tô convidando todas vocês para a noite de autógrafos! Yayyy!

Cordel de Moda – Arte e Cotidiano na Feira de Caruaru! Ah, aqui tem a parte acadêmica deste trabalho, para quem quiser saber mais…

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